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Quando a nossa vida parece estar nas mãos do outro

Ângela Mestriner

Há situações em que somos, de fato, vítimas daquilo que nos aconteceu.

Experiências de violência, abandono, abuso, negligência, perdas ou acontecimentos sobre os quais não tínhamos qualquer possibilidade de escolha podem deixar marcas profundas.

Reconhecer isso é importante. Há sofrimentos pelos quais não somos responsáveis.

Mas existe outra experiência, mais sutil, que também merece ser observada: quando, mesmo havendo alguma possibilidade de escolha no presente, continuamos vivendo como se nossa vida dependesse sempre do que o outro faz — ou deixa de fazer.

O outro não muda.

O outro não percebe.

O outro não me dá aquilo de que preciso.

O outro deveria agir de outra maneira.

Talvez tudo isso seja verdade.

Mas onde fico eu nessa história?

Quando a mudança depende sempre do outro

Às vezes, passamos muito tempo esperando que alguém finalmente nos compreenda, reconheça aquilo que fez, perceba nossas necessidades, mude seu comportamento ou nos trate de outra maneira.

Podemos ter razões legítimas para desejar tudo isso.

O problema começa quando a possibilidade de ficarmos bem também passa a depender inteiramente dessa mudança.

Enquanto o outro não muda, nada pode mudar.

É assim que, pouco a pouco, podemos entregar ao outro um enorme poder sobre nossa própria vida.

Talvez eu não consiga mudar o outro. Mas posso reconhecer aquilo que uma relação provoca em mim. Posso dizer o que penso. Estabelecer um limite. Fazer uma escolha. Posso até perceber que ainda não consigo fazer nada disso — mas reconhecer essa dificuldade já é diferente de acreditar que não existe escolha alguma.

Quando o sofrimento passa a organizar a relação

Há ainda um aspecto mais difícil de perceber.

Em algumas relações, o lugar de quem sofre pode, paradoxalmente, tornar-se também um lugar de poder.

Quando alguém se percebe sempre como aquele que é ferido, abandonado ou injustiçado, as pessoas ao redor podem começar a organizar suas escolhas em função desse sofrimento.

Evitam dizer determinadas coisas para não magoar. Cedem para não provocar uma crise. Abrem mão de limites para não despertar culpa, tristeza ou raiva.

Aos poucos, aquilo que aparece como fragilidade pode começar a determinar o comportamento de todos à volta.

Isso nem sempre acontece de maneira consciente ou deliberada. Não é preciso haver intenção de manipular para que uma dinâmica de controle se estabeleça.

O sofrimento de uma pessoa pode se tornar o organizador de toda uma relação.

E há um paradoxo nisso: quem se sente constantemente ferido pode ter dificuldade de perceber que também fere. Quem se sente controlado também pode controlar. Quem acredita não ter escolha pode, sem perceber, restringir as escolhas daqueles que estão ao seu redor.

Ter sido vítima não é o mesmo que permanecer nesse lugar

Essa distinção é fundamental.

Reconhecer que fomos vítimas de algo pode ser necessário para elaborar experiências nas quais realmente não tivemos escolha ou possibilidade de nos proteger.

Mas nossa história não precisa determinar para sempre o lugar que ocuparemos diante da vida.

Em algum momento, a pergunta pode deixar de ser apenas:

“Por que fizeram isso comigo?”

e passar a incluir:

“Diante do que aconteceu comigo, o que posso fazer agora?”

Não se trata de assumir responsabilidade por tudo o que nos aconteceu.

Trata-se de recuperar nossa possibilidade de escolha diante daquilo que nos aconteceu.

Recuperar a possibilidade de escolha

Escolher nem sempre é simples.

Pode significar desagradar alguém, enfrentar um conflito, estabelecer um limite, abandonar uma expectativa ou aceitar que o outro talvez nunca se transforme na pessoa que gostaríamos que ele fosse.

E talvez seja justamente por isso que, algumas vezes, esperamos tanto que a mudança venha do outro.

Recuperar nossa capacidade de escolha não significa acreditar que podemos controlar a vida. Há acontecimentos que não escolhemos, pessoas que não conseguimos mudar e histórias que não podem ser desfeitas.

Talvez a liberdade possível comece em reconhecer essa diferença:

o que não depende de mim — e aquilo que ainda depende.

E, diante daquilo que não podemos mudar, fazer uma pergunta que nos devolve para nós mesmos:

Onde ainda existe uma escolha que é minha?
Bifurcação de uma trilha entre oliveiras, com um caminho iluminado e outro sombreado
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