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Quando a culpa nos impede de viver a própria vida

Ângela Mestriner

A culpa pode ser um sentimento importante.

Ela pode aparecer quando reconhecemos que ferimos alguém, ultrapassamos um limite ou agimos de uma maneira que não corresponde aos nossos valores. Nesses momentos, pode nos levar a refletir, reparar alguma coisa ou fazer diferente.

Mas nem toda culpa significa que fizemos algo errado.

Às vezes, ela aparece justamente quando começamos a fazer algo importante por nós mesmos.

Dizer não. Colocar um limite. Sair de uma relação. Fazer uma escolha diferente daquela que esperavam de nós. Deixar a casa dos pais. Não estar disponível o tempo todo.

Nessas situações, a culpa pode surgir não porque estamos fazendo algo errado, mas porque estamos fazendo algo diferente daquilo que aprendemos que deveríamos fazer.

Quando escolher a si mesmo parece significar abandonar o outro

Algumas pessoas aprenderam muito cedo a prestar atenção às necessidades daqueles que estavam ao redor.

Perceber o humor dos pais. Evitar conflitos. Não dar trabalho. Corresponder às expectativas. Cuidar. Agradar.

Quando esse modo de se relacionar se torna profundamente incorporado, fazer uma escolha própria pode produzir uma sensação dolorosa.

Como se escolher a si mesmo significasse abandonar alguém.

Como se colocar um limite fosse egoísmo.

Como se crescer, separar-se ou desejar algo diferente significasse deixar alguém para trás.

E então podemos começar a fazer grandes movimentos para não sentir culpa: permanecemos onde já não queremos estar, assumimos responsabilidades que não são nossas, adiamos decisões ou abrimos mão de desejos importantes.

Mas talvez seja importante perguntar:

Quanto da minha vida estou deixando de viver para não sentir culpa?

Nem toda culpa precisa ser obedecida

Sentir culpa não significa necessariamente que precisamos voltar atrás.

Podemos sentir culpa e ainda assim estar fazendo uma escolha necessária.

Podemos amar alguém e decepcioná-lo. Podemos ser gratos aos nossos pais e construir uma vida diferente daquela que imaginaram para nós. Podemos compreender o sofrimento do outro sem assumir a responsabilidade de eliminá-lo.

Existe uma diferença entre considerar o outro e organizar a própria vida para impedir que o outro sofra qualquer frustração.

Talvez amadurecer também envolva suportar essa diferença.

Não se trata de agir sem responsabilidade ou deixar de considerar as consequências das nossas escolhas.

Trata-se de reconhecer que sentir culpa não é, por si só, uma prova de que estamos fazendo algo errado.

Por isso, talvez a pergunta não seja:

“Como faço para não sentir culpa?”

Mas:

“Essa culpa está me mostrando que feri algo importante — ou apareceu porque estou começando a me autorizar a viver de uma maneira mais minha?”

Talvez não seja preciso esperar que toda a culpa desapareça para seguir em frente.

Às vezes, crescer é conseguir levar a culpa conosco por algum tempo — sem permitir que ela decida a nossa vida.
Galho florido ultrapassando um muro de pedra em direção à luz
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