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Quando a raiva fala por aquilo que não conseguimos dizer

Ângela Mestriner

A raiva pode surgir por muitos motivos. Às vezes, ela é uma resposta importante diante de uma injustiça, de uma invasão ou de um limite ultrapassado. Em outras situações, porém, ela aparece na superfície enquanto sentimentos mais difíceis permanecem por baixo: medo, tristeza, impotência, vergonha, culpa ou medo de abandono.

Quando não conseguimos reconhecer o que está acontecendo conosco, podemos ficar presos apenas à raiva — e, principalmente, àquilo que o outro fez.

Mas nem sempre a pergunta é somente:

“Por que essa pessoa está fazendo isso comigo?”

Às vezes, há outra pergunta igualmente importante:

“O que eu não estou conseguindo decidir, dizer ou sustentar diante dela?”

Quando dizer “não” parece difícil demais

Às vezes, sabemos o que queremos, mas não conseguimos sustentar aquilo diante do outro.

Aceitamos um compromisso ao qual não queríamos ir. Assumimos novamente uma responsabilidade que gostaríamos de dividir. Permanecemos disponíveis quando precisávamos nos recolher. Concordamos com algo para evitar um conflito. Não dizemos que determinada situação nos incomoda porque tememos a reação que isso poderá provocar.

Naquele momento, dizer “sim” parece mais fácil do que lidar com o desconforto de dizer “não”.

Mas o desconforto não desaparece.

Muitas vezes, ele retorna na forma de irritação, ressentimento ou raiva.

E é fácil concluir: “Estou com raiva porque o outro exige demais, não percebe meus limites, não considera minhas necessidades.”

Talvez isso seja verdade. O outro pode, de fato, exigir, pressionar ou ultrapassar limites.

Mas existe uma segunda pergunta que também merece ser feita:

Por que eu não estou conseguindo reconhecer, comunicar ou sustentar o meu próprio limite?

Essa pergunta não retira a responsabilidade do outro por aquilo que ele faz. Ela apenas devolve a nós uma parte importante daquilo sobre o que podemos agir.

O que acontece quando não sustentamos uma decisão?

Dizer “não” pode ter um custo emocional.

Podemos nos sentir culpados por desagradar, temer decepcionar alguém, recear um conflito ou imaginar que deixaremos de ser queridos se frustrarmos as expectativas do outro.

Para evitar tudo isso, às vezes fazemos uma escolha aparentemente mais fácil: cedemos.

O problema é que aquilo que evitamos sentir naquele momento pode reaparecer depois em forma de ressentimento e raiva.

O outro tem seus desejos, necessidades e expectativas. Ele pode expressá-los — e até insistir neles. Isso não significa que precisamos atendê-los.

A questão passa a ser:

O que acontece dentro de mim quando o desejo do outro entra em conflito com o meu?

Consigo reconhecer o que quero?

Consigo comunicar?

E, principalmente, consigo sustentar minha decisão quando o outro não gosta dela?

Às vezes, a intensidade da nossa raiva tem relação justamente com uma decisão que não conseguimos tomar — ou sustentar.

O que existe por trás dessa dificuldade?

Vale então olhar um pouco mais fundo.

Por que é tão difícil desagradar?

Será que aprendi muito cedo que precisava corresponder às expectativas dos outros para ser aceita ou querida?

Será que espero que as pessoas percebam que estou sobrecarregada e tomem espontaneamente a decisão que eu gostaria de tomar — poupando-me da culpa de dizer “não”?

Ou será que aprendi a prestar tanta atenção às necessidades dos outros que tenho dificuldade até mesmo de reconhecer as minhas?

Não existe uma única resposta.

Mas, quando conseguimos deslocar o olhar exclusivamente do comportamento do outro e incluir também aquilo que acontece dentro de nós, alguma coisa muda.

A raiva deixa de ser apenas um sentimento do qual queremos nos livrar e pode se transformar em uma pergunta:

Que limite, desejo ou decisão minha está pedindo para ser reconhecido?

Às vezes, a raiva é a voz que encontramos quando ainda não conseguimos usar a nossa.
Janela com cortinas de linho e raios de luz atravessando uma fresta
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